Universidade – O Assassinato Pedagógico

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Boa tarde a todos,

Meu nome é Gabriel Pedro, estudante do primeiro ano do curso de Física – Bacharelado na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) que fica no interior de São Paulo. Hoje venho trazer algumas impressões que venho acumulando há meio ano. Deixo claro que ao falar Universidade, cito as Universidades Federais como um todo, não a UFSCar em particular, embora considero ela como exemplo e dela tiro minhas conclusões.
Pedagogicamente falando, a Universidade é um assassinato pedagógico. Contrariando todos os estudos pedagógicos que há mais de século tentam lutar contra essa escola de lamentações. Não só a Universidade, é verdade, mas todo o sistema pré-universitário.

A partir do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), ou melhor, antes dele, somos treinados diariamente pelas escolas a produzir respostas para perguntas que são rapidamente resolvidas escolhendo uma alternativa entre as 5 possíveis. Se você obtém uma nota boa nesse exame, você estará apto a lutar por uma vaga no SISU, sistema que garante sua vaga em um curso por meio de um ranking de nota. Pois bem, caso você obtenha uma boa nota, você claramente está apto a ser uma mão de obra especializada. Caso contrário, só será mão de obra. A não ser que queira “tentar a sorte” no ano seguinte.

Dentro da Universidade, somos impostos a uma série de livros que não prezam seu senso crítico, mas sim sua capacidade intelectiva de achar soluções omissas em exercícios propostos. Rapidamente vemos múltiplas inteligências se dividir, causarem conflitos internos e um afogamento de conteúdo.

Mais, a provável falta de variedade em campos de trabalho no mercado (principalmente em empresas) causa uma consequência drástica no ensino de Física, como estamos acostumados desde o Ensino Médio, vimos em sua maioria a parte teórica. Possuímos poucas aulas práticas e, logo, raramente conseguimos enxergar o que estudamos em nosso cotidiano. Desse modo, o estudo de Física se torna um relacionamento sério do estudante com a lousa. Um filme diferente cada dia na mesma lousa negra. Não que eu seja contra isso, mas um profissional que não tenha acesso à variedade de equipamentos com o qual viremos a trabalhar é um profissional que só entende a teoria.

A grade inicial me parece ser aleatória, entre as matérias vemos Cálculo I que é considerada uma das matérias mais difíceis dos cursos de Exatas, Física A, Geometria Analítica¹ e diversas outras matérias que pedem um conhecimento inicial pleno em todos os conteúdos, em teoria, previamente vistos no decorrer do Ensino Médio. Não preciso explanar que isso não acontece. Achamos na mesma sala pessoas de condições sociais diferentes, inteligências múltiplas diversas e posições intelectivas dispersas. Deixemos claro que na mesma sala podemos encontrar alunos de escolas públicas, alunos de escolas particulares e alunos que estudaram no cursinho por mais de anos. Logicamente, como um peso da justiça e igualdade que vemos, temos todos esses alunos sendo julgados ao mesmo tempo, pelos mesmos critérios e com a mesma média esperada. Ao meu ver, e meu ver compartilha algumas visões pedagógicas que vem surgindo há décadas, a Universidade está ultrapassada, julgando com os mesmos norteadores alunos com históricos e necessidades distintas.

Fora isso, encontramos greves periodicamente, tão periodicamente que é possível estabelecer um calendário prévio para quando elas acontecem. Não que isso seja um impedimento aos grevistas, mas sim um descuido do próprio sistema educacional ao deixar alunos periodicamente sem dispor de suas necessidades básicas.

Além disso, os métodos de avaliação medievais ainda são usados. Avaliações. Será que algum dia os alunos deixarão de ser constantemente avaliados? Essa periodização avaliativa é realmente necessária? Caso sim, em uma sociedade que se atualiza diariamente, ainda devemos conviver com sistemas avaliativos idênticos aos da Idade Média? Caso sim, é necessário esse método avaliativo ter um caráter punitivo e não pedagógico?

Muitos dizem: “Mas nos Estados Unidos todo o sistema funciona do mesmo jeito, assim como também na Europa”. Gostaria de vos lembrar, amigos, que o Brasil não é um estado dos Estados Unidos e também não é um país da Europa. Concordo plenamente que certas ideias devem ser não copiadas, mas adaptadas. Vivemos em um país historicamente e socialmente despreparado para suportar ideias que hoje são vividas em países diferentes.

Ao meu ver, se os Estados Unidos funcionam da mesma forma (e com Estados Unidos substitua pelo país de sua escolha), eles também estão errados. Os argumentos são os mesmos, a pedagogia pode ser aplicada, mas, claro, no contexto social e político de cada país.

Fora isso, os professores são excelentes, os outros alunos são brilhantes, a única coisa que destrói todo o sistema é o sistema. Como uma árvore de raiz podre que tem frutos belos, mas que logo cairão junto com a árvore.

Só para finalizar, os estudantes universitários são geralmente confinados em um cotidiano que ao acordar, pensamos: “Hoje eu só quero ir bem naquela prova”. A efemeridade e inutilidade da frase são dolorosas.

Luto hoje e lutarei amanhã por uma universidade que tenha como sua citação e seu expoente: “Hoje eu só quero mudar o mundo. Nem que seja pouco. Nem que seja muito pouco. Hoje mudarei o jeito de fazer, o jeito de viver, o jeito de se pensar. E que se danem todas as provas”.

Não digo que o sistema avaliativo e funcional deve ser aniquilado, mas que deve ser constantemente atualizado para que os jovens de hoje não queiram se tornar os jovens do amanhã com as mentalidades dos jovens de dois milênios atrás.
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Edição (10 de Junho de 2015):
Obs¹: Com falar da aleatoriedade das matérias, não digo que elas são inúteis, as que citei provavelmente são as mais usadas, aliás, mas a falta de preparo prévio para matérias com didáticas tão distintas das ensinadas no Ensino Médio me levam a crer que, pedagogicamente falando, foram escolhidas de forma aleatória. Algumas universidades, por exemplo, apresentam curso prévio de Cálculo (o chamado Pré-Cálculo ou Básica 1), que apresentam resultados diferentes em diferentes Universidades. O que deve ser feito é uma reformulação do jeito de se pensar antes de se pensar no jeito certo de fazer.

Membro do GAFC | Acadêmico de Física na UFSCar.

Discussion1 Comentário

  1. Vale ressaltar que o sistema de aulas expositivas na minha opinião é muito mais devastador que simplesmente avaliações. Aliás a carga horária em sala de aula também. É muito tempo perdido tentando aprender passivamente do que botando a mão na massa ou até mesmo resolver exercícios propostos nos livros texto.

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