A Coisa mais Preciosa #01

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O primeiro capítulo do livro O Mundo Assombrado Pelos Demônios de Carl Sagan afirma que a coisa mais preciosa é a Ciência. Inicia-se com a frase da pessoa que revolucionou a física no século XX.

“A ciência comparada a realidade é primitiva e infantil, mas no entanto é a coisa mais preciosa que temos” (Albert Einstein).

Carl Sagan inicia retratando que ao ir à uma convenção científica — a qual debateria como melhorar a forma de ensinar e divulgar a ciência para o público leigo — teve um diálogo com o motorista que o transladou do aeroporto ao local do evento.

O motorista começou a conversar com Sagan, — sem saber exatamente quem ele era — questionou se não era confuso ter o mesmo nome “aquele cientista”. Após descobrir que de fato estava transportando “aquele cientista”, explicou que seu nome era Willian F. Buckley — o mesmo que de um famoso entrevistador norte americano, e achava que Sagan sofresse do mesmo problema.

Buckley queria conhecer ciência, perguntou se ambos poderiam conversar sobre o assunto. Prontamente Sagan disse que não se importava. Entretanto, não foi bem sobre ciência que ambos conversaram. O senhor Buckley queria saber sobre Extraterrestres, Canalização — um modo de escutar as almas dos mortos —, os Cristais de Atlântida, as Profecias de Nostradamus, Astrologia, Sudário de Turim… Ele, como qualquer um, começava cada assunto com uma emoção grande, mas Sagan o desanimava, dizendo que as evidencias sobre os temas levantados pelo motorista eram precárias. De certo modo, o motorista era bem informado, sabia todas as informações e novidades sobre os assuntos, Sagan afirmava não haver nenhuma evidência oceanográfica para Atlântida, e nenhuma base científica cética nas propostas de Atlântida e demais assuntos que Buckley levantara. Desanimando-o.

Carl Sagan direcionando-se ao senhor Buckley afirma que na Ciência existem coisas muito mais interessantes e emocionantes, em ciência tudo é baseado em evidências, nela há muito mais estímulos ao intelectual do que doutrinas falaciosas e está muito mais próxima da verdade. Será que as pessoas comuns sabem sobre os tijolos moleculares da vida no gás frio e rarefeito das estrelas? Das pegadas de nossos antepassados gravadas em cinza vulcânica datada de 4 milhões de anos? E do himalaia erguendo-se quando a Índia se espatifou contra a Ásia? E como os vírus conseguem como uma agulha destruir as camadas das células e quebrar as bases? Sobre a investigação de possíveis formas de vidas extraterrestres inteligentes por ondas de rádio? Ele não havia ouvido virtualmente nada sobre a ciência moderna. Ele queria conhecer ciência, mas a verdadeira ciência perdeu-se nos filtros, antes de chegar até ele.

Os nossos temas culturais e meios de comunicação provocaram uma censura na ciência verdadeira. Não lhe foi ensinado a distinguir a ciência verdadeira da imitação barata (pseudociência). Os relatos espúrios que enganam os ingênuos são acessíveis. As abordagens céticas são muito difíceis de encontrar. O ceticismo não vende bem. Uma pessoa inteligente e curiosa que se baseie inteiramente na cultura popular para se informar sobre uma questão como Atlântida tem uma probabilidade centenas ou milhares de vezes maior de encontrar uma fabula tratada de maneira acrítica em lugar de uma avaliação sóbria e equilibrada.

As pessoas deveriam ser mais céticas a respeito das informações que lhe são fornecidas pela cultura popular. É, de certo modo, ingenuidade aceitar de forma dogmática o que é proposto como verdade. A ciência desperta um sentimento sublime de admiração, mas a pseudociência também gera os mesmos efeitos. As divulgações escassas e mal feitas da ciência abandonam nichos ecológicos que a pseudociência preenche rapidamente. Se houvesse a compreensão geral de que qualquer afirmação necessitasse de uma evidência adequada antes de ser aceita, não haveria espaço para a pseudociência e misticismos.

Em todo mundo com certeza existem pessoas inteligentes e até talentosas que nutrem uma paixão pela ciência. Mas, essa paixão não é correspondida. Os levantamentos sugerem que 95% dos norte-americanos são “cientificamente analfabetos”. É lamentável que a sociedade de jovens atual é mais ignorante que a geração anterior e, em alguns casos muito anterior!

Isso é muito preocupante, há pessoas que não compreendem a revolução da Terra em órbita ao redor do sol, e dos movimentos dos astros do Sistema Solar. É perigoso que as pessoas ignorem o Aquecimento Global, o crescimento elevado da população, a diminuição da camada de ozônio, o lixo toxico e radioativo…etc. Os empregos e salários dependem da ciência e tecnologia. Considere-se as ramificações sociais das energia de fissão e fusão, dos supercomputadores, televisão de alta resolução, remédios, pílulas anticoncepcionais, procura de cura para Aids e câncer. Como podemos viver sem compreender questões simples? e viver sem ciência? A ciência está em nossas vidas. E não compreendemos. É muito desanimador saber que as pessoas não se maravilhem com ciência.

Qual foi o último presidente com formação cientifica? que tivesse um ceticismo para compreender a real necessidade da população? Encontrar formas de conduzir um país baseado em ciência, que saiba o que fazer e onde agir? Tudo começa por educação e ciência, se as pessoas conhecem a ciência saberão que ela é muito importante, e que seu método pode nos auxiliar a ponderar sobre tudo.

A ciência verdadeira se baseia em evidencias e provas, não em fantasias e questões que não podem ser provadas racionalmente e nem praticamente. É incrível como a pseudociência é muito abrangente. Consideramos a seguinte reflexão: “Não existem evidências da inexistência de um unicórnio sobrenatural na superfície do sol, portanto, ele existe”. A pseudociência dos visitantes extraterrestres fascina muitos, e ainda, a pseudociência da astronomia — a astrologia — fascina muito. Existem hoje pessoas que sequer passam um dia sem ler seu signo. Como as pessoas acreditam que um planeta a milhões ou Bilhões de quilômetros distante da Terra vai ter influência sobre nossas vidas?

Neste sentido, nós nos importamos com o que é verdade? Isso faz alguma diferença? O poeta Thomas Grey escreveu: “Quando a ignorância é felicidade, é loucura ser sábio”. Mas, será mesmo?

Talvez a distinção mais clara entre a ciência e a pseudociência seja o fato de que a primeira sabe avaliar com mais perspicácia as imperfeições e a falibilidade humanas do que a segunda (ou a revelação infalível). Se nos recusamos radicalmente a reconhecer em que pontos somos propensos a cair em erro, podemos ter quase certeza de que o erro — mesmo o engano sério, os erros profundos — nos acompanhará para sempre. Mas, se somos capazes, de uma pequena auto-avaliação corajosa, quaisquer que sejam as reflexões tristes que possa provocar, as nossas chances melhoram muito.

Nota Importante: Esta publicação faz parte de uma série de resumos dos capítulos do livro O Mundo Assombrado Pelos Demônios de Carl Sagan. O principal objetivo é compartilhar e estimular o leitor a ler o livro em sua totalidade.

SAGAN, Carl. O Mundo Assombrado pelos Demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

Douglas Ferrari

Presidente/Fundador | Desenvolve atividades de Divulgação e Educação Científica, é Coordenador do UNAWE Brazil (SC region), da Universidade de Leiden, Holanda. Ex-Acadêmico de Física e atual Acadêmico de Sociologia.

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